terça-feira, 9 de março de 2021

Mulheres Libres




    Nesse mês de Março, preparamos algumas homenagens às mulheres anarquistas que nos ensinaram com suas histórias  e suas lutas. E para começar, saudamos as Mujeres Libres e todas as companheiras que lutam em organizações politicas ou não, pela resistência, segurança e emancipação de mulheres, em seus mais diversos e interseccionais lugares.

    Em 1934 nasce na Espanha o Grupo Cultural Feminino em conjunto com o grupo redator da revista ``Mujeres libres'' composto por três importantes anarquistas espanholas: Lucía Sánchez, Mercedes Comaposadae Amparo Poch. A federação cresceu rapidamente e em quatro anos já tinha cerca de 20.000 integrantes, se tornando assim embrião da organização anarcofeminista Mujeres Libres, criada oficialmente em 1936.

Com grande expressividade durante a Guerra Civil Espanhola, e é ainda hoje uma referência histórica no debate de gênero e anarquismo, essa organização nasce da necessidade de resistência ao machismo fora e dentro dos meios libertários, inclusive na CNT - Confederação Nacional do Trabalho. Assim, essas mulheres se organizavam em busca do que chamavam de ‘‘luta dupla’’, pela emancipação social anarquista e pela emancipação feminina.

Tinham como principais bandeiras promover para mulheres educação e capacitação para o trabalho, em meio a uma grande taxa de analfabetismo, bem como a construção de locais que funcionavam como centros de apoio a mulheres prostituídas.

Durante essa Semana faremos uma série de postagens em homenagem a algumas mulheres anarquistas que marcaram a história, começando pelas próprias organizadoras do Mujeres Libres. 


     


    Lucía Sánchez Saornil é um dos pouco nomes de anarquistas publicamente lésbicas e é com ela que abrimos nossa semana.

    Se conhecer a história de mulheres no anarquismo ou em outros movimentos sociais já é um processo de analise de apagamentos, por conta do machismo, conhecer a história de mulheres lésbicas é uma duplo desafio, graças a lesbofobia que invisibiliza suas trajetorias. Por isso mesmo, saudamos sua memória e luta.

    Lucia foi uma militante anarquista e feminista, poeta espanhola, conhecida por ser uma das fundadoras do Mujeres Libres, importante organização de mulheres anarquista. Ela também serviu na Confederación Nacional del Trabajo (CNT) e na Solidaridad Internacional Antifascista (SAI), e, entre outras coisas, publicou em gazetas importantes na década de 20, usando por vezes pseudônimo masculinos para adentrar esses espaços. Ela conseguiu explorar temáticas caras como as da lesbianidade e anarquismo, em um período em que a ‘‘homossexualidade’’ era criminalizada e as vozes femininas secundarizadas.

    Perseguida enquanto anarquista e enquanto mulher que ama outra mulheres, sem dúvida sua sexualidade foi parte das sua luta e da forma como percebia o mundo e as\os companheiras\os a sua volta.

Por: Renata Argolo

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Degradação do Trabalho Docente na Pandemia do Covid-19

    


    
    O ano de 2020 significou mais trabalho para a maioria dos setores da classe trabalhadora, sobretudo, com um agravante para saúde física e psicológica de muitos, devido às condições mais perigosas e insalubres alargadas pela disseminação do COVID-19; também pela ineficácia na resposta em políticas de saúde pelo Governo Federal. Este ano será lembrado ainda, em especial, pela maioria de professoras e de professores pela irregular condição de seus trabalhos, como destaque, a invasão da escola no dia a dia do lar.

    Esse cenário pandêmico foi a desculpa para intensificar certas tendências e investidas contra a educação e a classe professoral. Não basta ir longe. Nos primeiros cem dias do governo Bolsonaro, o então presidente assinou um projeto de regulamentação do ensino domiciliar.* Manifestação dos desejos de transferir a responsabilidade da educação para a família e para o privado. Ainda em 2019 um plano de bloqueio de verbas para o ensino superior foi acompanhado da posição do governante em favor da ampliação do Ensino à Distância (EaD). O Ministro da Educação duplicou a carga de horas EaD para cursos de graduação presencial (Portaria nº 2.117, de 6 de dezembro de 2019). Foi a margem de manobra necessária para as Instituições de Ensino Superior (IES) privadas aumentarem o número de demissões. O desemprego estrutural do setor da educação ganhou mais números com essa medida e as universidades federais tiveram que reduzir suas capacidades administrativas com base no restrito orçamento. Estes imperativos não se restringem ao ensino superior. Na Bahia, por exemplo, o “Novo Ensino Médio” proposto pelo governo estadual (PT) propõe carga horária na modalidade EaD de forma obrigatória para estudantes da rede pública.**

    A pandemia chegou e os capitalistas não abriram mão de seus ganhos. A generalização intensificada das aulas remotas foi suficiente para alargarem o uso de aplicativos para o ensino remoto, e fazer crescer uma demanda de professores e professoras para adaptaram-se a nova situação imposta. Para analistas dos Mundos do Trabalho, a incorporação de novas tecnologias em processos de trabalho que barateiam os custos de produção não encontra retorno para etapas anteriores. Em outras palavras, pode ser um caminho sem volta. Corre o risco do ensino remoto e o uso de plataformas virtuais não seja revestida para a rede educação privada no pós-pandemia . Relatos de docentes do ensino superior privado dizem que salários percebidos no início de 2020 eram em torno dos 5.000 reais e foram reduzidos a 900 reais em meados de agosto.*** Algumas IES, por exemplo, mantiveram as mensalidades com valor integral de cursos presenciais para os/as estudantes, mesmo oferecendo a modalidade de ensino remoto durante o contexto de quarentena. Em escolas privadas o caso é mais emblemático, com o valor das horas/aulas reduzidas pela metade. Além de dos cortes nos salários de educadoras e de educadores, a precarização e os custos reduzidos pelos empregadores se dão, sobretudo, nas formas de junções de turmas para o ensino remoto. Embora o discurso seja de suposta penúria, essas instituições estão aumentando suas taxas de lucro.

    Maiores turmas, menores salários percebidos, e mais trabalho para operar as novas ferramentas de ensino afetam a experiência dos educadores e das educadoras. Acontece que esse cenário intensificou o processo de proletarização da educação, já em curso desde os decênios finais do século XX, mas que agora ganhou condições sociais e tecnológicas para ser realmente efetivada. A proletarização significa maior força efetiva de controle sobre o trabalho do professor e da professora, aumento da racionalidade formal das empresas, aprofundamento da especialização do trabalho e aprofundamento da rotinização dos processos de trabalho.

    Todo esse processo tem consequências na dimensão do gênero. Na formação do capitalismo, a burguesia buscou criar noções próprias de identidades de gênero que associou a feminilidade às tarefas do cuidado, do amor, e do lar como dimensões que invisibilizam os trabalhos da reprodução e da manutenção da vida como não-trabalho ou trabalho não remunerado. Esta massa de trabalho gratuito é substancialmente concretizada pelas mulheres ainda na sociedade contemporânea, e ela é fundamental para gerar as condições humanas necessárias para que possamos vender nossa força de trabalho. Os empregadores se beneficiam deste processo e tiram daí também expropriação do trabalho das mulheres. Seja sobre as educadoras, seja sobre as mães das educandas e dos educandos. 

    Como educadoras, a duplicação da jornada de trabalho de casa já conhecida, se confunde com o da escola: custeamento das condições para a prestação das aulas, com encargos de energia, água, internet, notebook, trabalhos de edição de vídeo e disponibilidade quase ininterrupta ao atendimento ao alunado, com prestação a assistência educacional, mas também técnica, auxiliando educandos no uso das ferramentas virtuais; tudo isto é somado ainda aos cuidados de limpeza, alimentação, administração de contas e do lar, cuidados com outros membros da casa, crianças, adultos, doentes ou pessoas idosas. Para as mães dos e das estudantes, o ensino remoto aprofundou o espaço para que as mulheres ainda tenham que se preocupar com o suporte dado as dúvidas, dificuldades, cuidados com o espaço de aprendizagem e dos recursos das condições para as aulas de seus filhos e filhas. Toda essa estrutura sexista oculta os custos dos encargos que devem ser responsabilidades dos empregadores das escolas privadas, mas que são pagos pela força de trabalho das mulheres. 

    O discurso patronal não poderia ser outro. Eles querem reduzir os custos e afirmam que aulas gravadas garantem aos e às estudantes reproduzirem os vídeos e aprenderem mais. Nem docentes, nem discentes e menos ainda pais e mães se deixam enganar por este discurso. Por outro lado, reside ali também outro aspecto fundamental: o maior controle do trabalho sobre educadores e educadoras. Muitas IES e escolas privadas estão propondo que os vídeos produzidos pelas/pelos docentes sejam reutilizados em futuros cursos da instituição. Isto é sem dúvida um controle sobre os nossos processos de produção intelectual em termos de tempo e de conteúdo, mas também abriu maiores margens para o patrulhamento político/ideológico. Bandeiras centrais do bolsonarismo. Já são inúmeros os eventos acadêmicos, aulas do ensino superior e de pós-graduações são alvos preferidos de ataques cibernéticos efetuados por grupos fascistas que efetuam palavras de ordem pró-bolsonaro, atrapalham os eventos com exibições de fotos e vídeos pornográficos e materiais anticomunistas e homofóbicos. 

    Diante deste cenário, trabalhadoras e trabalhadores da educação não estão em silêncio. Portanto, cabe a nós a resistência encarniçada contra os patrões e o governo. Contra a investida tecnocrata das grandes corporações que dominam o ensino privado no país, e que querem nos transformar em aparatos humanos a transferir de forma bancária os conteúdos disciplinares. Ensinar é aprender, é trocar experiências, é fundamentalmente um exercício de criar condições para a autonomia. De punhos cerrados estamos contra o retorno das aulas e também contra a normatização do EAD. Não há outra maneira de barrar os avanços dos capitalistas sobre a educação. Construir a luta organizada de educadores e estudantes é construir Poder Popular.


Carlos Augusto Braga,
Educador
Militante pelo Fórum Anarquista Especifista da Bahia

*http://portal.mec.gov.br/component/content/article?id=75061:educacao-domiciliar

**http://jornadapedagogica.educacao.ba.gov.br/wp-content/uploads/2020/01/Documento-Orientador-Novo-Ensino-M%C3%A9dio-na-Bahia-Vers%C3%A3o-Final.pdf
***https://www.metro1.com.br/noticias/cidade/96813,sucateamento-da-unifacs-professores-com-doutorado-recebem-r-400-de-salario

domingo, 30 de agosto de 2020

O que fere o teu masculino?

              

 

    Com o avançar dos debates que evidenciam as opressões de gênero enquanto um pilar essencial de manutenção do Estado e do capitalismo, é imprescindível a morte imediata e incontestável das concepções que formam e/ou formatam a masculinidade, aqui, dirijo-me não só masculinidade branca e heterossexual, mas, à todas aquelas que ao longo dos séculos foram sendo criadas ou recriadas tendo por base essencial esse padrão. Contudo, para a existência desse massacre basilar, é necessário que todo aquele que se pretenda um indivíduo-ferramenta na luta revolucionária anticolonialista não se furte a conflitar o que molda sua existência, percebendo em si e nos seus comportamentos a primeira zona de combate para a mudança da sociedade.

    Mas que linhas invisíveis demarcam e moldam o terreno ideológico da masculinidade? É importante ter em mente, ao nos debruçar nesse questionamento, que o conceito de masculinidade foi alvo de disputa histórica tomando a forma com que conhecemos a partir dos últimos séculos. Kimmel (1998) traz que a partir da primeira metade do século XIX, passa a existir na Europa e nos Estados Unidos um novo “ser masculino”, o Self-Made Man, que devia a todo instante se provar e demonstrar seu valor a partir da aquisição de bens e elevação de cargo e importância social. Esse modelo de “ser homem” vai ser posto como modelo básico do viver capitalista sumariamente importado e debatido no resto do mundo em conjunto com os ideais higienistas e liberais. Essa constante necessidade de provar-se homem cria a tendência de desmontar e inferiorizar todas as outras formas de ser homem, é a partir desse movimento de contradição que se molda o hegemônico, delimitando os outros enquanto os outros em uma relação de superior versus inferior, que é por conseguinte, uma relação de poder.

    Ressalto a importância desse movimento onde “hegemônico e o subalterno emergem em mútua e desigual interação, em uma ordem social e econômica com uma demarcação prévia distorcida de gênero” (KIMMEL, p.103, 1998). Nesse momento, virada do século XIX, a raça e a classe são somadas com outros caracteres para criação de estereótipos que vão ser utilizados em um processo de estigmatização que é sintomático. Homens negros, indígenas vão ser tratados enquanto selvagens, violentos, irracionais ao mesmo tempo que são incapazes de sustentar suas famílias, ingênuos e incultos assim como, homens gays e mulheres vão ser alvos preferenciais dessa violência estrutural do gênero. A construção dessa hegemonia tem por objetivo principal delimitar masculinidades que vão ser sumariamente tratadas como problemáticas ou desviantes, para com isso, tornar mais simples ao homem burguês exercer e disputar discursivamente suas masculinidades com seus semelhantes, garantindo ao mesmo um tempo uma ferramenta segura para afastar os concorrentes dessa narrativa.

    Relegada ao campo do físico e da irracionalidade a masculinidade do homem negro vai ser entendida por Nkósi (2014) num processo de projeções simultâneas, ao mesmo tempo que o corpo negro é dotado de atributos físicos invejáveis, reside neles o instinto selvagem da violência; ao mesmo tempo que possui um pênis gigantesco, reside nele a tendência ao abuso sexual e ao estupro; ao mesmo tempo que são inocentes e influenciáveis, são socialmente perigosos, preguiçosos e viciados, ou seja, o “negro é representado como contraponto antiético do ser humano” (Nkósi, 2014, p.83). Esses rótulos que são sumariamente construídos, principalmente nas sociedades norte-americana e brasileira, transformam homens negros, contraditoriamente, em indivíduos invisíveis que oferecem perigos constantes às estruturas sociais, justificando sua perseguição, encarceramento e assassinato promovidos initerruptamente pelo Estado. Esses estereótipos que interseccionam gênero e raça, são estendidos aos povos indígenas no Brasil sofrendo poucas mudanças no quadro geral, visto como um povo “atrasado” frente ao progresso. O homem indígena é tido como inculto e ingênuo dotado de uma masculinidade selvagem, inferiores ao homem hegemônico por não possuírem ferramentas intelectuais para compreender a sociedade moderna. Eles não merecem possuir suas terras pois não sabem como gestá-las em prol da produção capitalista, devem, portanto, cedê-las aos grandes homens brancos detentores dos maquinários e meios capazes de dar rumo ao progresso capitalista.

    Contudo, é indiscutível que, ao construir-se enquanto hegemônico, é sobre as mulheres e homens gays que o padrão de masculinidade branca e heterossexual deposita seus conceitos de inferioridade, frisando que esse movimento é extremamente acentuado pelo racismo. Cabe a esses indivíduos os ônus da construção de um padrão de masculinidade branca que é a principal causa de que mulheres e homens gays negros tenham suas vidas marcadas pela violência racial e de gênero sumariamente construídas e reafirmadas como necessárias e corretivas para corpos que não se adaptaram à norma.

    Problematizando ainda mais o conceito socialmente produzido de ser masculino e de masculinidades, as existências trans põem em crise todo o discurso que gira em torno no binarismo, esse sistema que delimita o masculino e feminino como traços biológicos, elencando possibilidades e vivências fora dos moldes de gênero hegemonicamente traçados. Pouco se têm de estudos sobre as transmasculinidades o que revela a dificuldade social em aceitação e reconhecimento desses corpos, muitas vezes enquadrados como mulheres lésbicas masculinizadas, “é como se os comportamentos e os significados considerados masculinos emanassem necessariamente da presença material original do pênis.” (ALMEIDA, 2012, p.519).

    Esse conceito do ser masculino construído como zona de conforto para que homens brancos pudessem limar discursivamente a existência de outros e galgar livremente ascensões sociais, tornou-se estrutural a tal maneira que é pilar do capitalismo e seus sistemas de retroalimentação. Num sentindo geral, a existência de uma masculinidade hegemônica e percebida primeiramente pelos corpos alvos de sua violência reforçados pelas marcas de um poder construído na branquitude e heterossexualidade compulsória que relega às outras existências impossibilidades sociais predefinidas. Assim, somente a destruição de todo o sistema dessa masculinidade existente é que pode abrir caminho à uma nova abordagem de gênero/raça onde os subalternos possam ter voz ativa e produzir livremente suas existências.




Referências

ALMEIDA, Guilherme. “Homens trans”: novos matizes na aquarela das masculinidades?. Revista Estudos Feministas, v. 20, n. 2, p. 513-523, 2012.


KIMMEL, Michael S. A produção simultânea de masculinidades hegemônicas e subalternas. Horizontes antropológicos, v. 4, n. 9, p. 103-117, 1998.


MACHADO, Lia Zanotta. Masculinidades e violências: gênero e mal-estar na sociedade contemporânea. Universidade de Brasília, Departamento de Antropologia, 2001.


NKOSI, Deivison Faustino. O pênis sem falo: algumas reflexões sobre homens negros, masculinidade e racismo. Feminismos e masculinidades. Eva Alterman Blay (org.). São Paulo: Cultura Acadêmica, 2014.

sexta-feira, 22 de maio de 2020

Casos de Feminicídio Crescem Durante a Pandemia


“Feminicídios em BH: Duas mulheres foram mortas pelos companheiros. Um suspeito foi preso”; “Mulher é vítima de feminicídio em São Cristóvão”; “Casos de feminicídio sobem 73% nos primeiros três meses de 2020 em relação ao ano anterior no RS”; “Suspeito de matar a mulher em SP é preso em bar ao beber após o crime.” “Casos de feminicídio dobram no Acre e governo faz campanha contra violência doméstica”

Essas são algumas entres tantas manchetes de diversos sites e reportagens televisivas relatando casos de feminicídio em todo o país só esse ano. Os casos se agravam a partir de março, que inclusive é quando começa o isolamento social recomendado pela OMS por conta da pandemia. Os assassinatos dessas mulheres são efetuados de forma cruel e calculista. Em alguns relatos o agressor diz “sair de e si durante o ato”, todos os relatos apontam que a causa foi o ciúmes ou posse. O curioso é observar quantos desses homens se autodeclaram, logo após o feminicídio, vítimas da própria “insanidade”. Quando, na verdade, o nome que se dá é crime premeditado. Vejam aqui alguns relato sobre casos que aconteceram em abril desse ano: 
“A Polícia Civil de Boituva, a 121 km de São Paulo, prendeu anteontem um homem de 32 anos suspeito de matar a própria esposa, enrolar o corpo dela em um cobertor e ir a um bar antes de sumir com o cadáver. “

“A chilena Karina Constanza Bobadilla Chat, de 22 anos, morta com mais de 20 facadas no dia 1º de fevereiro em Rio Branco. O motivo do crime, foi porque a vítima não aceitava um relacionamento com o suspeito.”

“Katiane de Lima, de 23 anos, foi calada de forma brutal pelo companheiro dela com pelo menos três facadas, no pescoço, braço e costelas. Ela estava com o filho no colo na hora que foi assassinada “

“O da servidora pública Sara Araújo de Lima, de 38 anos, morta a tiros, no dia 13 de abril. O autor dos disparos foi o marido dela, Jorge Alberto Franco Filho. Eles já tinham se separado por ameaças do companheiro, Sara chegou a registrar queixa, mas os dois reataram e tudo acabou com os dois mortos.”

Em todos os casos, o assassino utiliza da mutilação, afogamento, esfaqueamento, utilizam ferramentas como chaves de fenda, martelo, pedra, foice, arma de fogo, para matar sua companheira. Segundo a pesquisadora, Jackeline Aparecida Ferreira Romio, autora do estudo "Feminicídios no Brasil: Uma Proposta de Análise com Dados do Setor de Saúde”, a  agressão é praticado por homens que tinham histórico de explosões de ciúme. É como se eles entendessem que aquele corpo feminino pertencesse a ele. Uma vez que a mulher não "obedeceu" à regra, ele quis destruí-lo. A mutilação vaginal ou de rosto está presente em 40% dos casos.

Mas porque homens se sentem no direito de tirar a vida de mulheres? Porque na maioria das vezes a causa dessas mortes se dá pelo sentimento de posse sob o corpo dessas mulheres? 

Vamos começar pela objetificação das mulheres sustentadas pelo patriarcado O feminicídio se constrói aos poucos, nos detalhes do dia a dia da relação. Vem maquiado de ciúmes, cuidado, amor, contada de geração em geração, para  homens e mulheres, desde a infância, em nome da manutenção do patriarcado e da submissão da mulher. Mulheres durante a história foram submetidas ao papel unicamente satisfatório para os homens, desde aos desejos físicos básicos como alimentação, até os desejos sexuais. Isso se dá muito por conta do construção da masculidade e como ela influenciou no comportamento do homem e na exigência dos mesmos sobre o comportamento da mulher. Por ser alimentada essa ideia moral cristã de que mulheres devem  submissão aos homens por toda uma sociedade imersas à ideologias machistas e sexistas,  muitas vezes romantiza-se a posse como sinônimo de amor. Isso é alimentado em romances na literatura, novelas, músicas. Existe todo um contexto social que faz com que o homem se enxergue como o provedor, o herói, o macho alfa, enquanto a mulher como um ser vulnerável, fraco e dependente (falo sem aprofundar num quisito raça, em que para as mulheres negras e os homens negros são dados papéis muito mais agressivos, mas aí é um papo para um outro texto). Quando uma mulher rejeita a atenção de um homem, esse tem sua masculinidade ferida, e como ele “não pode” demonstrar fragilidade, apela para a violência. Só que esse apelo tem matado mulheres todos os dias e culpado essas mesmas mulheres por suas mortes! 

Durante o isolamento social o índice de violência contra mulher física e sexual cresceu de forma exorbitante, porém diminuiu o numero de denúncias. As vítimas não conseguem se deslocar das suas casas para fazerem as denúncias por conta das medidas de proteção anunciadas pela OMS e porque estão expostas aos agressores vinte e quatro horas dentro de suas casas e por conta do medo, elas não dão a queixa. Há casos em que o corpo da vítima só foi encontrado alguns dias depois do crime por alguns vizinhos escondido em algum cômodo da sua casa. Os vizinhos encontraram por conta do mal cheiro. 

Mulheres têm seus corpos silenciados com a desculpa do “amar demais” Quem ama não machuca. Em tempos de isolamento, a exposição desses corpos para com seus agressores é ainda maior e tem acabado com mulheres sendo assassinadas. O pior é a naturalização dessas situações e a culpabilização da vítima em todos os casos pela sociedade e muitas vezes, a negligencia de tantos outros pelo Estado. 
Quantas vezes uma mulher terá que gritar para ser ouvida e sua vida ser poupada?






sexta-feira, 15 de maio de 2020

“E se uma nova geração de profissionais fosse perdida?”




É com esse slogan que o Ministério da Educação convida em rede nacional estudantes secundaristas para a realização do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) – o que é habitual nessa época do ano, se não fosse o fato de estarmos vivendo uma pandemia por conta da COVID-19.


Há alguns meses setores da sociedade foram orientados pela OMS (Organização Mundial de Saúde) a serem paralisados, dentre eles as escolas e aulas foram suspensas por tempo indeterminado. Nesse período, a modalidade de ensino a distância, conhecida como EAD foi adotada: as aulas presenciais foram substituídas e agora acontecem através de transmissões ao vivo, popularmente conhecida como lives, as avaliações são feitas em casa, há a possibilidade dos estudantes tirarem dúvidas com seus professores através de plataformas adotadas pela escola; enfim, uma série de recursos foram adotados para que o ensino não fosse prejudicado. 

Mas para quem esses recursos e tecnologias estão sendo direcionados?

Antes de tudo é preciso saber que, segundo uma pesquisa* realizada pelo TIC Domicílios em 2017 e divulgada em julho do ano posterior, pelo Comitê Gestor da Internet, no Brasil temos “27 milhões de residências desconectadas, enquanto outras 42,1 milhões acessam a rede via banda larga ou dispositivos móveis”, sendo que nas classes mais baixas o índice de pessoas sem acesso a internet é de 70%, enquanto que nas classe mais abastardas 99% dos domicílios possuem alguma forma de acesso.

É necessário trazer esses números a mostra, para voltarmos à pergunta que a propaganda do governo nos faz “E se uma nova geração de profissionais fosse perdida?” – é nítido para nós que uma nova geração já está sendo perdida há algum tempo: quando não há estrutura no ambiente escolar para os estudantes, falta de livros e laboratórios de pesquisa, salas de aula superlotadas.  Sobretudo agora, é perceptível a disparidade entre o ensino privado onde métodos EAD estão sendo utilizados e o ensino público, onde estudantes que são em sua maioria pobres não possuem acesso a esses meios  na escola, tampouco em suas residências.

Manobras para continuar os estudos são feitas diariamente, usando a internet do vizinho para baixar o material, ou se descolando a outro ponto para conseguir o sinal. Essa é uma das realidades que o atual governo fecha os olhos. O quão interessante é para o Estado que um ou uma jovem negro (a) secundarista, ingresse no ensino público superior? Para o regime que vivemos essa geração de profissionais deve ser de fato perdida e vire mais um número na estatística seja ela a do desemprego ou morte.

Apesar do delicado momento em que todos nós estamos vivendo, se faz necessário refletir e, sobretudo, lutar contra um sistema opressor que a cada dia que passa crava ainda mais suas garras e dilacera de todas as formas possíveis o povo pobre e periférico. Não é o momento de continuarmos como se nada estivesse acontecendo e seguir a diante com o ENEM, tampouco de pedir o adiantamento das provas. Adiantar esse exame, que para muitos é a oportunidade de fazer uma faculdade e ser o primeiro, a primeira da família a estar no ensino superior e não fazer parte das estatísticas é de fato a solução? Precisamos lutar para um ensino público, de qualidade a todas e todos!

Tampouco, não podemos nos iludir com o ensino a distância – visto como uma medida de urgência nesse momento de crise é um projeto de sucateamento e desvalorização dos professores. O ensino através de lives e vídeo aulas gera uma falsa compreensão dos conteúdos administrados, além disso, o governo pode não contratar novos professores e demitir os existentes tendo como base o EAD. O ambiente é escolar vai muito além da relação professor x estudante: coordenadores, diretores, auxiliares escolares, fazem parte do ambiente físico da escola, de sua estrutura e funcionamento, todos serão afetados caso no futuro o EAD seja adotado como nova forma de ensino. 

A educação segue sendo nossa maior arma contra os gritos de tirania sobre nosso povo, não podemos deixar que o ambiente escolar deixe de existir, pelo contrário: temos que resistir, lutar e criar um poder popular!

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Gêneros Impressos: Uma análise da revista A Renascença, 1916 - 1918



O Nascimento de Vênus (Sandro Botticelli): análise da obra ...



Um dos objetivos do nosso blog será apresentar para vocês alguns trabalhos dos militantes da nossa organização. Pensando nisso, iniciaremos nossa biblioteca virtual, com o trabalho da nossa militante Leila Maria, que é graduada em História pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, mestranda em História pela Universidade Estadual de Feira de Santana, poetiza e professora na rede básica. O seu artigo tem como objetivo, analisar os discursos e representações sobre os gêneros e suas relações no período inicial da República, a partir de um veículo midiático impresso, a Revista Ilustrada Renascença, entre os anos de 1916 a 1918.

No texto, Leila ressalta que esse periódico de variedades, presente na Bahia, possuiu formas de identificar os sexos entre masculino e feminino em acordo com os então novos anseios da modernidade, abordando esses parâmetros para favorecer e incentivar certas condutas de comportamentos para os gêneros no espaço público e no privado. Além de promover ideais iluministas e estimular o letramento da população baiana. 

Foi possível também compreender no periódico enquanto objeto de estudo, sua formação editorial e seus princípios expressos nos conteúdos, que reafirmam as diferenças de gênero entre homens e mulheres, deixando margens para percebermos como os sujeitos podem ter se apropriado dessas representações na sociedade baiana.

Segue então o link do artigo. Espero que apreciem o trabalho da nossa historiadora .