domingo, 6 de junho de 2021

Repensando a Saúde Mental na Pandemia

     



    Segundo a Organização Mundial de Saúde, vivemos no país com o maior índice de pessoas afetadas por ansiedade no mundo e no quinto mais depressivo, parte dos sintomas dessas doenças se manifestam e agravam entre os 10 aos 14 anos de idade levando à população jovem até os 19 anos apresentarem os primeiros sintomas. Este quadro acaba por ser despercebido por inúmeras famílias pela falta de acesso à serviço público psicológico e psiquiátrico que ensine como perceber os primeiros sinais, lidar com eles e tratá-los da maneira adequada.

    Infelizmente a ineficiência ou inadequação das políticas públicas que deveriam garantir ao Sistema Único de Saúde exercer a função de local de acesso, tratamento a esses indivíduos e orientação adequada de seus familiares, acaba por gerar quadros assustadores quando estudados. Os pacientes em adoecimento mental acabam por sofrer pelo o descaso do Estado no fornecimento de profissionais e medicação gratuita, além de uma estigmatização e preconceito tanto na comunidade onde estão inseridos quanto nos hospitais psiquiátricos para onde são levados - institutos que na maioria das vezes violam os direitos humanos e de cidadania de muito de seus pacientes.

    Com o despontar da pandemia e das recomendações de isolamento e afastamento como forma de combate ao vírus, entra em cena uma nova problemática a ser considerada. O humano é um ser social, produto e produtor de sua própria realidade, tendo a subjetividade constituída em suas ações sociais, dentro de um contexto histórico determinado. Nesse sentido, a configuração do sofrimento mental, ou até mesmo da doença como uma das formas de organização dos processos vitais do sujeito, não podem ser analisadas em um vazio sócio-histórico. Ou seja, não podemos minimizar o impacto do distanciamento e do isolamento social impostos pela pandemia no processo de adoecimento mental, uma vez que são justamente a socialização e as redes de apoio familiares, sociais e comunitárias que fortalecem os sujeitos e os tornam humanos.

    Nesse sentido, a pandemia tem produzido significativas experiências de sofrimento mental, frutos não apenas das medidas de controle do contágio do covid-19, como o distanciamento social, mas também pelo grande desamparo advindo das políticas de abandono e de genocídio que submetem ainda mais parcelas vulneráveis da população a violentas catástrofes cotidianas. Aparentemente, não há diferença de classe, raça, gênero e sexualidade no que se refere ao contágio, mas há desigualdades gritantes no que tange às formas de exposição e de adoecimento. No Brasil, com a antiga política de morte em curso, grupos sociais, como os povos tradicionais, a população em situação de rua, a população LGBTI, trabalhadores e trabalhadoras negros, dentre outros, são jogados em zonas de menor visibilidade e de maior vulnerabilidade.

    Concomitante a isso, vivemos em uma sociedade na qual problemas de distintas naturezas são entendidos unicamente pela perspectiva biomédica, sendo assim, o sofrimento mental é patologizado e medicalizado, desconsiderando-se os determinantes e condicionantes sociais e históricos no adoecimento. Ainda não há dados epidemiológicos precisos sobre as implicações psicológicas relacionadas ao covid-19. Como temos visto no Brasil, a saúde mental do trabalhador é diretamente afetada com as condições precárias de biossegurança, as incertezas sobre a doença e a possibilidade de infectar familiares e amigos tem potencializado estados mentais com altas taxas de estresse nos trabalhadores.

    Ressaltamos aqui a política de extermínio do presidente Jair Bolsonaro que tem ido constantemente contra às recomendações da OMS, utilizando das principais ferramentas estatais e midiáticas, contribuindo para um cenário de incertezas, de medo e de desconfiança, inclusive atacando ações decretadas por governadores dos estados que tentam minimamente sanar à crise. O brasileiro não possui, no mínimo, uma projeção de quando começará a ter uma situação de saúde mais controlada em relação ao covid-19, o que torna ainda mais difícil a manutenção dos protocolos de segurança pela população, assim como da administração da angústia frente às mudanças impostas pela pandemia.

    Nas situações de isolamento e de distanciamento social há restrições em diferentes níveis do contato entre pessoas, as quais estão carregadas de dilemas éticos e geram importantes impactos econômicos, sociais e de saúde. A revisão de estudos sobre situações de isolamento e distanciamento aponta alta prevalência de efeitos psicológicos negativos, sobretudo, a incidência de humor rebaixado e irritabilidade, junto a um longo período de medo e insônia. Entre as situações próprias desse período de pandemia, tem-se que a impossibilidade de manutenção dos ritos culturais e religiosos no dia a dia, assim como nos velórios e funerais das vítimas, têm contribuído para agravar os processo de luto das perdas familiares e de amigos nesse período, o que pode acarretar, significativo sofrimento psíquico.

    Temos ainda uma outra limitação no que diz respeito aos serviços de saúde mental, com a estratégia de precarização do SUS e dos serviços da área de saúde mental, percebe-se um intenso crescimento da “virtualização” dos atendimentos psiquiátricos e psicológicos, com valores muitas vezes inalcançáveis para a população dependente dessas consultas. Esse processo de transformar demandas cotidianas em dados virtuais se estende às demais classes de trabalhadores, como os professores por exemplo, que precisam conciliar os cuidados do lar com o chamado home office.

    É notória a intensificação do sofrimento psíquico, assim como da naturalização da pobreza e das opressões sociais! A pandemia revelou de forma pungente o descaso do Estado com os vários campos que envolvem esse grande conglomerado ao qual denominamos Saúde, apesar de rotineiramente utilizamos da palavras sem termos dimensão da amplitude, ou até mesmo dizer, do conglomerado de instituições e relações de poder que a determinam, majoritariamente, desfavorecendo a classe mais pobre. Em um cenário de grandes incertezas e acentuação da ofensiva neoliberal, a luta popular por uma vida digna, e um povo forte, é cada vez mais urgente!

Uma campanha por uma vida digna!

Uma campanha pela saúde do povo!

Uma campanha pela defesa do SUS!


Por: Job Paulo/ Beatriz Oliveira



terça-feira, 18 de maio de 2021

CUIDAR NÃO É PRENDER !!


**A foto acima foram feitas pelo fotógrafo Luiz Alfredo durante sua visita ao hospital em 1961 e foram publicadas na revista O Cruzeiro. Elas estão também presentes no livro “Holocausto Brasileiro”, da jornalista Daniela Arbex. **


Com as mudanças comportamentais e danos psicossociais causados pela pandemia, salta aos olhos os contínuos processos de desmonte do SUS e, concomitantemente, da área psiquiátrica que vão sendo intensificados no governo Bolsonaro. De acordo com DELGADO (2019, p.1), desde a década de 1980 até o governo Temer, existiu uma mobilização social e cultural gradual e complexa da gestão pública que resultou em um crescimento relativamente firme e contínuo no que diz respeito a políticas de atenção à saúde mental da população brasileira.

O primeiro sinal desse desmantelamento vem no formato da a Emenda Constitucional (EC) 95 ou, “política do teto de gastos” como ficou conhecida, é a partir dela que temos um congelamento das verbas destinadas às instituições públicas revelando o aprofundamento da agenda neoliberal na gestão pública brasileira. A Emenda afeta o SUS e seus serviços interseccionais com a assistência social e educação impactando diretamente na área da saúde mental que mantém uma correlação com essas três áreas. Podemos inferir que o recrudescimento da agenda neoliberal já mostrava ali sua agenda de enfraquecimento dos serviços públicos básicos.

Entre 2016 e 2019 o governo brasileiro foi tomando medidas e alterando gradualmente a qualidade da prestação de serviços e atendimento à população que necessita. Esse processo se evidencia quando observamos, por exemplo, a alteração da Política Nacional de Atenção Básica (PNAB), dispensando a obrigatoriedade da presença do agente comunitário de saúde nas equipes de saúde da família; alteração e redução nos cadastramentos no Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e estímulo financeiro e institucional da utilização dos Hospitais Psiquiátricos como modelo central para tratamento.

Em pronunciamento oficial, a partir de uma nota técnica emitida em fevereiro de 2019, o Ministério da Saúde do governo Bolsonaro reforça seu pacto com as medidas neoliberais do governo Temer. A Nota reproduz em seu discurso o combate genérico e superficial anti-ideológico, carro-chefe da campanha bolsonarista, apresentando novos elementos que vão nortear a desconstrução dos serviços psiquiátricos, como: reforço na centralidade do tratamento em hospitais psiquiátricos, incentivo à internação de pacientes em hospitais gerais, uso de tratamento por eletroconvulsoterapia e o desmembramento entre uma lógica de saúde mental e combate às drogas, com o financiamento de comunidades terapêuticas.

Em um cenário de pandemia e eleições municipais, muitos pacientes de hospitais municipais se deparam com cenários de troca dos psicólogos e psiquiatras e/ou falta de medicação nas farmácias dos postos de saúde o que encarece e dificulta a sequência do tratamento. Levando em conta tal cenário, insistimos que analisando a junção entre a EC 95 e a nota ministerial temos uma conjuntura de sucateamento do atendimento psiquiátrico via SUS e reforço a privatização e encarceramento manicomial de uma parcela da população, ou seja, colocar esses pacientes novamente em instituições que operam sob uma ótica asilar.

 E o que seriam esses asilos? São instituições que têm como principais funções sociais o gerenciamento de sujeitos improdutivos, que na falta de condições de serem produtivos economicamente, são despejados, isolados e tutelados pelo saber médico. Soma-se a isso a lógica da saúde enquanto mercadoria, que consiste em uma forma de geração de lucro através da circulação de insumos e de recursos manicomiais, de modo que os “loucos” viram consumidores dos serviços.

Além disso, os hospitais psiquiátricos operam o importante papel de lugar de despejo não só dos improdutivos, mas também do sujeito que representa as contradições latentes da nossa sociabilidade, de modo que o louco, enquanto produto direto da subjetivação neoliberal, denuncia o nosso padrão normativo de organização social. Se o nosso modo de produção e de sociabilidade tem o lucro acima do bem estar do coletivo, como não sermos uma máquina de loucos? Como já dizia Fanon, “o louco é aquele que é estranho à sociedade”.

Tais instituições, em um contexto psiquiátrico, sob o disfarce de neutralidade científica e primor técnico, alienam o sujeito tomado como doente mental, o desresponsabilizando do autocuidado, de modo a criar a demanda de uma proteção médica (tutela). Desta forma, o Estado protege a sociedade do louco, e o louco de si mesmo, tirando assim, violentamente, a sua autonomia e liberdade. 

Cabe ainda fazer a urgente ponte entre duas instituições: as prisões e os manicômios. Ambas são importantes mecanismos do Estado de gerenciamento e de controle social,  seja pela via da tutela ou pela via da criminalização, dos sujeitos que representam o desvio social ou a perturbação da ordem. Portanto, faz-se fundamental compreender como tais instituições ao segregam para “ressocializar”, exercem o papel crucial de depósito humano, sobretudo através da coisificação da população pobre e negra, tendo assim, forte propósito eugenista sob uma base racista. 

Um antigo lema da Luta Antimanicomial que deve sempre ser levantado é que a "liberdade é terapêutica"! E o que é o cuidado em liberdade se não a ação, com o outro, sobre a realidade a fim de transformá-la? Como já dizia Bakunin: “A liberdade do outro, longe de ser um limite ou a negação da minha liberdade, é, ao contrário, sua condição necessária e sua confirmação. Apenas a liberdade dos outros me torna verdadeiramente livre”.

Dito isso, a Luta Antimanicomial deve ser construída de forma articulada à luta política geral, e não de forma tão isolada e restrita a profissionais e usuários de serviços de saúde mental como é atualmente. Tal luta deve ser reivindicada como uma pauta urgente e que diz respeito a todos que lutam pela liberdade e pela igualdade!

No que diz respeito especificamente à resistência antimanicomial, vivemos uma grande crise, a qual estourou recentemente frente aos fortes ataques ao campo da atenção psicossocial nos últimos anos. Diante de um processo de despolitização do campo da saúde mental, assistimos a Reforma Psiquiátrica sofrendo um processo de manicomialização. Ao confiarmos na legalidade e na ilusão de manutenção dos direitos conquistados institucionalmente, vimos as nossas lutas sendo amortecidas, e nossos direitos duramente conquistados, sendo retirados rapidamente mediante as fortes investidas neoliberais. 

Cabe relembrar o Manifesto de Bauru, no Segundo Congresso Nacional dos Trabalhadores de Saúde Mental em 1987, momento em que a Luta Antimanicomial marca a sua radicalização, colocando-se contra a destruição total das instituições asilares e da lógica manicomial, assim como contra qualquer forma de exclusão e de discriminação. Tal compromisso trouxe a necessidade inerente de aliança com a classe trabalhadora organizada e demais movimentos populares, e nesse momento de desmonte do nosso Sistema Único de Saúde e de contra reforma psiquiátrica, é urgente resgatarmos a radicalidade e tais princípios na Luta Antimanicomial para termos uma sociedade livre dos manicômios!

Em defesa de uma vida digna!

Em defesa do SUS!

Em defesa da saúde mental em liberdade!

Tortura e manicômios, nunca mais!


Por: Job Paulo / Beatriz Oliveira

 

terça-feira, 9 de março de 2021

Mulheres Libres




    Nesse mês de Março, preparamos algumas homenagens às mulheres anarquistas que nos ensinaram com suas histórias  e suas lutas. E para começar, saudamos as Mujeres Libres e todas as companheiras que lutam em organizações politicas ou não, pela resistência, segurança e emancipação de mulheres, em seus mais diversos e interseccionais lugares.

    Em 1934 nasce na Espanha o Grupo Cultural Feminino em conjunto com o grupo redator da revista ``Mujeres libres'' composto por três importantes anarquistas espanholas: Lucía Sánchez, Mercedes Comaposadae Amparo Poch. A federação cresceu rapidamente e em quatro anos já tinha cerca de 20.000 integrantes, se tornando assim embrião da organização anarcofeminista Mujeres Libres, criada oficialmente em 1936.

Com grande expressividade durante a Guerra Civil Espanhola, e é ainda hoje uma referência histórica no debate de gênero e anarquismo, essa organização nasce da necessidade de resistência ao machismo fora e dentro dos meios libertários, inclusive na CNT - Confederação Nacional do Trabalho. Assim, essas mulheres se organizavam em busca do que chamavam de ‘‘luta dupla’’, pela emancipação social anarquista e pela emancipação feminina.

Tinham como principais bandeiras promover para mulheres educação e capacitação para o trabalho, em meio a uma grande taxa de analfabetismo, bem como a construção de locais que funcionavam como centros de apoio a mulheres prostituídas.

Durante essa Semana faremos uma série de postagens em homenagem a algumas mulheres anarquistas que marcaram a história, começando pelas próprias organizadoras do Mujeres Libres. 


     


    Lucía Sánchez Saornil é um dos pouco nomes de anarquistas publicamente lésbicas e é com ela que abrimos nossa semana.

    Se conhecer a história de mulheres no anarquismo ou em outros movimentos sociais já é um processo de analise de apagamentos, por conta do machismo, conhecer a história de mulheres lésbicas é uma duplo desafio, graças a lesbofobia que invisibiliza suas trajetorias. Por isso mesmo, saudamos sua memória e luta.

    Lucia foi uma militante anarquista e feminista, poeta espanhola, conhecida por ser uma das fundadoras do Mujeres Libres, importante organização de mulheres anarquista. Ela também serviu na Confederación Nacional del Trabajo (CNT) e na Solidaridad Internacional Antifascista (SAI), e, entre outras coisas, publicou em gazetas importantes na década de 20, usando por vezes pseudônimo masculinos para adentrar esses espaços. Ela conseguiu explorar temáticas caras como as da lesbianidade e anarquismo, em um período em que a ‘‘homossexualidade’’ era criminalizada e as vozes femininas secundarizadas.

    Perseguida enquanto anarquista e enquanto mulher que ama outra mulheres, sem dúvida sua sexualidade foi parte das sua luta e da forma como percebia o mundo e as\os companheiras\os a sua volta.



    Amparo Poch é a primeira anarquista espanhola co-fundadora do Mujeres Libres que apresentamos aqui.

    Médica, escritora e pacifista. Cursou medicina contra a vontade do pai e a despeito do preconceito de outros homens acadêmicos, sendo a segunda mulher a se formar na Faculdade de Medicina de Saragoça e também teve formação em biologia. Atuou como diretora no Ministério de Saúde e Assistência Social e usou essa posição para criar os "liberatorios de prostitución", lares onde mulheres prostituídas poderiam receber assistência médica, psicoterapia e treinamento profissional para permitir que adquirissem independência econômica por outros meios. Assim como participou da criação da "Casa Dona Trabalhadora", onde ofertavam cursos para alfabetização e formação profissional de mulheres.

    Amparo defendia a conscientização sobre a sexualidade feminina e lutou contra a monogamia. Tinha uma relação mais próxima com a ideia da maternidade e escreveu sobre uma abordagem anarquista da criação de filhos. Também foi o co-líder da Liga Española de Refractarios a la Guerra, um braço espanhol da Internacional de Resistentes à Guerra, que ajudava vítimas do conflito da Guerra Civil Espanhola. Além disso também abriu uma clínica em Madri para atender mulheres e criança, que prezava para que fosse acessível, e lutou diretamente pela redução de mortalidade infantil e pela possibilidade de mulheres terem uma gravidez e lactação saudável.

    Amparo desafiou espaços e profissões considerados masculinos e usou suas formações para promover saúde, liberdade e conhecimento para mulheres e crianças.




    Mercedes Composada é outra anarcofeminista com importante participação na Revolução Social Espanhola de 1936, e também co fundadora do Mujeres Libres. Foi advogada e pedagoga, se dedicando a ensinar outras mulheres, principalmente nos cursos de ensino fundamental organizados pela CNT, onde enfrentava misoginia e preconceitos por parte dos operários.

    Foi filiada ao Sindicato de Espetáculos Públicos de Barcelona da Confederación Nacional del Trabajo. E contribuiu de maneira significativa para a imprensa libertária espanhola, e em seguida francesa, quando exilada em Paris. Além de ser editora chefe da revista Mujeres Libres, escrevia também para a Tierra y Libertad e Tiempos Nuevos. Na década de 70 começou a escrever um livro a partir das cartas que pediu que veteranas enviassem para ela, contando suas próprias experiências, mas infelizmente o manuscrito sumiu após a sua morte.

    Mercedes acreditava e fazia da educação seu instrumento de luta, buscando sempre compartilhar conhecimentos e formação com outras companheiras.


Por: Renata Argolo

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Degradação do Trabalho Docente na Pandemia do Covid-19

    


    
    O ano de 2020 significou mais trabalho para a maioria dos setores da classe trabalhadora, sobretudo, com um agravante para saúde física e psicológica de muitos, devido às condições mais perigosas e insalubres alargadas pela disseminação do COVID-19; também pela ineficácia na resposta em políticas de saúde pelo Governo Federal. Este ano será lembrado ainda, em especial, pela maioria de professoras e de professores pela irregular condição de seus trabalhos, como destaque, a invasão da escola no dia a dia do lar.

    Esse cenário pandêmico foi a desculpa para intensificar certas tendências e investidas contra a educação e a classe professoral. Não basta ir longe. Nos primeiros cem dias do governo Bolsonaro, o então presidente assinou um projeto de regulamentação do ensino domiciliar.* Manifestação dos desejos de transferir a responsabilidade da educação para a família e para o privado. Ainda em 2019 um plano de bloqueio de verbas para o ensino superior foi acompanhado da posição do governante em favor da ampliação do Ensino à Distância (EaD). O Ministro da Educação duplicou a carga de horas EaD para cursos de graduação presencial (Portaria nº 2.117, de 6 de dezembro de 2019). Foi a margem de manobra necessária para as Instituições de Ensino Superior (IES) privadas aumentarem o número de demissões. O desemprego estrutural do setor da educação ganhou mais números com essa medida e as universidades federais tiveram que reduzir suas capacidades administrativas com base no restrito orçamento. Estes imperativos não se restringem ao ensino superior. Na Bahia, por exemplo, o “Novo Ensino Médio” proposto pelo governo estadual (PT) propõe carga horária na modalidade EaD de forma obrigatória para estudantes da rede pública.**

    A pandemia chegou e os capitalistas não abriram mão de seus ganhos. A generalização intensificada das aulas remotas foi suficiente para alargarem o uso de aplicativos para o ensino remoto, e fazer crescer uma demanda de professores e professoras para adaptaram-se a nova situação imposta. Para analistas dos Mundos do Trabalho, a incorporação de novas tecnologias em processos de trabalho que barateiam os custos de produção não encontra retorno para etapas anteriores. Em outras palavras, pode ser um caminho sem volta. Corre o risco do ensino remoto e o uso de plataformas virtuais não seja revestida para a rede educação privada no pós-pandemia . Relatos de docentes do ensino superior privado dizem que salários percebidos no início de 2020 eram em torno dos 5.000 reais e foram reduzidos a 900 reais em meados de agosto.*** Algumas IES, por exemplo, mantiveram as mensalidades com valor integral de cursos presenciais para os/as estudantes, mesmo oferecendo a modalidade de ensino remoto durante o contexto de quarentena. Em escolas privadas o caso é mais emblemático, com o valor das horas/aulas reduzidas pela metade. Além de dos cortes nos salários de educadoras e de educadores, a precarização e os custos reduzidos pelos empregadores se dão, sobretudo, nas formas de junções de turmas para o ensino remoto. Embora o discurso seja de suposta penúria, essas instituições estão aumentando suas taxas de lucro.

    Maiores turmas, menores salários percebidos, e mais trabalho para operar as novas ferramentas de ensino afetam a experiência dos educadores e das educadoras. Acontece que esse cenário intensificou o processo de proletarização da educação, já em curso desde os decênios finais do século XX, mas que agora ganhou condições sociais e tecnológicas para ser realmente efetivada. A proletarização significa maior força efetiva de controle sobre o trabalho do professor e da professora, aumento da racionalidade formal das empresas, aprofundamento da especialização do trabalho e aprofundamento da rotinização dos processos de trabalho.

    Todo esse processo tem consequências na dimensão do gênero. Na formação do capitalismo, a burguesia buscou criar noções próprias de identidades de gênero que associou a feminilidade às tarefas do cuidado, do amor, e do lar como dimensões que invisibilizam os trabalhos da reprodução e da manutenção da vida como não-trabalho ou trabalho não remunerado. Esta massa de trabalho gratuito é substancialmente concretizada pelas mulheres ainda na sociedade contemporânea, e ela é fundamental para gerar as condições humanas necessárias para que possamos vender nossa força de trabalho. Os empregadores se beneficiam deste processo e tiram daí também expropriação do trabalho das mulheres. Seja sobre as educadoras, seja sobre as mães das educandas e dos educandos. 

    Como educadoras, a duplicação da jornada de trabalho de casa já conhecida, se confunde com o da escola: custeamento das condições para a prestação das aulas, com encargos de energia, água, internet, notebook, trabalhos de edição de vídeo e disponibilidade quase ininterrupta ao atendimento ao alunado, com prestação a assistência educacional, mas também técnica, auxiliando educandos no uso das ferramentas virtuais; tudo isto é somado ainda aos cuidados de limpeza, alimentação, administração de contas e do lar, cuidados com outros membros da casa, crianças, adultos, doentes ou pessoas idosas. Para as mães dos e das estudantes, o ensino remoto aprofundou o espaço para que as mulheres ainda tenham que se preocupar com o suporte dado as dúvidas, dificuldades, cuidados com o espaço de aprendizagem e dos recursos das condições para as aulas de seus filhos e filhas. Toda essa estrutura sexista oculta os custos dos encargos que devem ser responsabilidades dos empregadores das escolas privadas, mas que são pagos pela força de trabalho das mulheres. 

    O discurso patronal não poderia ser outro. Eles querem reduzir os custos e afirmam que aulas gravadas garantem aos e às estudantes reproduzirem os vídeos e aprenderem mais. Nem docentes, nem discentes e menos ainda pais e mães se deixam enganar por este discurso. Por outro lado, reside ali também outro aspecto fundamental: o maior controle do trabalho sobre educadores e educadoras. Muitas IES e escolas privadas estão propondo que os vídeos produzidos pelas/pelos docentes sejam reutilizados em futuros cursos da instituição. Isto é sem dúvida um controle sobre os nossos processos de produção intelectual em termos de tempo e de conteúdo, mas também abriu maiores margens para o patrulhamento político/ideológico. Bandeiras centrais do bolsonarismo. Já são inúmeros os eventos acadêmicos, aulas do ensino superior e de pós-graduações são alvos preferidos de ataques cibernéticos efetuados por grupos fascistas que efetuam palavras de ordem pró-bolsonaro, atrapalham os eventos com exibições de fotos e vídeos pornográficos e materiais anticomunistas e homofóbicos. 

    Diante deste cenário, trabalhadoras e trabalhadores da educação não estão em silêncio. Portanto, cabe a nós a resistência encarniçada contra os patrões e o governo. Contra a investida tecnocrata das grandes corporações que dominam o ensino privado no país, e que querem nos transformar em aparatos humanos a transferir de forma bancária os conteúdos disciplinares. Ensinar é aprender, é trocar experiências, é fundamentalmente um exercício de criar condições para a autonomia. De punhos cerrados estamos contra o retorno das aulas e também contra a normatização do EAD. Não há outra maneira de barrar os avanços dos capitalistas sobre a educação. Construir a luta organizada de educadores e estudantes é construir Poder Popular.


Carlos Augusto Braga,
Educador
Militante pelo Fórum Anarquista Especifista da Bahia

*http://portal.mec.gov.br/component/content/article?id=75061:educacao-domiciliar

**http://jornadapedagogica.educacao.ba.gov.br/wp-content/uploads/2020/01/Documento-Orientador-Novo-Ensino-M%C3%A9dio-na-Bahia-Vers%C3%A3o-Final.pdf
***https://www.metro1.com.br/noticias/cidade/96813,sucateamento-da-unifacs-professores-com-doutorado-recebem-r-400-de-salario

domingo, 30 de agosto de 2020

O que fere o teu masculino?

              

 

    Com o avançar dos debates que evidenciam as opressões de gênero enquanto um pilar essencial de manutenção do Estado e do capitalismo, é imprescindível a morte imediata e incontestável das concepções que formam e/ou formatam a masculinidade, aqui, dirijo-me não só masculinidade branca e heterossexual, mas, à todas aquelas que ao longo dos séculos foram sendo criadas ou recriadas tendo por base essencial esse padrão. Contudo, para a existência desse massacre basilar, é necessário que todo aquele que se pretenda um indivíduo-ferramenta na luta revolucionária anticolonialista não se furte a conflitar o que molda sua existência, percebendo em si e nos seus comportamentos a primeira zona de combate para a mudança da sociedade.

    Mas que linhas invisíveis demarcam e moldam o terreno ideológico da masculinidade? É importante ter em mente, ao nos debruçar nesse questionamento, que o conceito de masculinidade foi alvo de disputa histórica tomando a forma com que conhecemos a partir dos últimos séculos. Kimmel (1998) traz que a partir da primeira metade do século XIX, passa a existir na Europa e nos Estados Unidos um novo “ser masculino”, o Self-Made Man, que devia a todo instante se provar e demonstrar seu valor a partir da aquisição de bens e elevação de cargo e importância social. Esse modelo de “ser homem” vai ser posto como modelo básico do viver capitalista sumariamente importado e debatido no resto do mundo em conjunto com os ideais higienistas e liberais. Essa constante necessidade de provar-se homem cria a tendência de desmontar e inferiorizar todas as outras formas de ser homem, é a partir desse movimento de contradição que se molda o hegemônico, delimitando os outros enquanto os outros em uma relação de superior versus inferior, que é por conseguinte, uma relação de poder.

    Ressalto a importância desse movimento onde “hegemônico e o subalterno emergem em mútua e desigual interação, em uma ordem social e econômica com uma demarcação prévia distorcida de gênero” (KIMMEL, p.103, 1998). Nesse momento, virada do século XIX, a raça e a classe são somadas com outros caracteres para criação de estereótipos que vão ser utilizados em um processo de estigmatização que é sintomático. Homens negros, indígenas vão ser tratados enquanto selvagens, violentos, irracionais ao mesmo tempo que são incapazes de sustentar suas famílias, ingênuos e incultos assim como, homens gays e mulheres vão ser alvos preferenciais dessa violência estrutural do gênero. A construção dessa hegemonia tem por objetivo principal delimitar masculinidades que vão ser sumariamente tratadas como problemáticas ou desviantes, para com isso, tornar mais simples ao homem burguês exercer e disputar discursivamente suas masculinidades com seus semelhantes, garantindo ao mesmo um tempo uma ferramenta segura para afastar os concorrentes dessa narrativa.

    Relegada ao campo do físico e da irracionalidade a masculinidade do homem negro vai ser entendida por Nkósi (2014) num processo de projeções simultâneas, ao mesmo tempo que o corpo negro é dotado de atributos físicos invejáveis, reside neles o instinto selvagem da violência; ao mesmo tempo que possui um pênis gigantesco, reside nele a tendência ao abuso sexual e ao estupro; ao mesmo tempo que são inocentes e influenciáveis, são socialmente perigosos, preguiçosos e viciados, ou seja, o “negro é representado como contraponto antiético do ser humano” (Nkósi, 2014, p.83). Esses rótulos que são sumariamente construídos, principalmente nas sociedades norte-americana e brasileira, transformam homens negros, contraditoriamente, em indivíduos invisíveis que oferecem perigos constantes às estruturas sociais, justificando sua perseguição, encarceramento e assassinato promovidos initerruptamente pelo Estado. Esses estereótipos que interseccionam gênero e raça, são estendidos aos povos indígenas no Brasil sofrendo poucas mudanças no quadro geral, visto como um povo “atrasado” frente ao progresso. O homem indígena é tido como inculto e ingênuo dotado de uma masculinidade selvagem, inferiores ao homem hegemônico por não possuírem ferramentas intelectuais para compreender a sociedade moderna. Eles não merecem possuir suas terras pois não sabem como gestá-las em prol da produção capitalista, devem, portanto, cedê-las aos grandes homens brancos detentores dos maquinários e meios capazes de dar rumo ao progresso capitalista.

    Contudo, é indiscutível que, ao construir-se enquanto hegemônico, é sobre as mulheres e homens gays que o padrão de masculinidade branca e heterossexual deposita seus conceitos de inferioridade, frisando que esse movimento é extremamente acentuado pelo racismo. Cabe a esses indivíduos os ônus da construção de um padrão de masculinidade branca que é a principal causa de que mulheres e homens gays negros tenham suas vidas marcadas pela violência racial e de gênero sumariamente construídas e reafirmadas como necessárias e corretivas para corpos que não se adaptaram à norma.

    Problematizando ainda mais o conceito socialmente produzido de ser masculino e de masculinidades, as existências trans põem em crise todo o discurso que gira em torno no binarismo, esse sistema que delimita o masculino e feminino como traços biológicos, elencando possibilidades e vivências fora dos moldes de gênero hegemonicamente traçados. Pouco se têm de estudos sobre as transmasculinidades o que revela a dificuldade social em aceitação e reconhecimento desses corpos, muitas vezes enquadrados como mulheres lésbicas masculinizadas, “é como se os comportamentos e os significados considerados masculinos emanassem necessariamente da presença material original do pênis.” (ALMEIDA, 2012, p.519).

    Esse conceito do ser masculino construído como zona de conforto para que homens brancos pudessem limar discursivamente a existência de outros e galgar livremente ascensões sociais, tornou-se estrutural a tal maneira que é pilar do capitalismo e seus sistemas de retroalimentação. Num sentindo geral, a existência de uma masculinidade hegemônica e percebida primeiramente pelos corpos alvos de sua violência reforçados pelas marcas de um poder construído na branquitude e heterossexualidade compulsória que relega às outras existências impossibilidades sociais predefinidas. Assim, somente a destruição de todo o sistema dessa masculinidade existente é que pode abrir caminho à uma nova abordagem de gênero/raça onde os subalternos possam ter voz ativa e produzir livremente suas existências.




Referências

ALMEIDA, Guilherme. “Homens trans”: novos matizes na aquarela das masculinidades?. Revista Estudos Feministas, v. 20, n. 2, p. 513-523, 2012.


KIMMEL, Michael S. A produção simultânea de masculinidades hegemônicas e subalternas. Horizontes antropológicos, v. 4, n. 9, p. 103-117, 1998.


MACHADO, Lia Zanotta. Masculinidades e violências: gênero e mal-estar na sociedade contemporânea. Universidade de Brasília, Departamento de Antropologia, 2001.


NKOSI, Deivison Faustino. O pênis sem falo: algumas reflexões sobre homens negros, masculinidade e racismo. Feminismos e masculinidades. Eva Alterman Blay (org.). São Paulo: Cultura Acadêmica, 2014.

sexta-feira, 22 de maio de 2020

Casos de Feminicídio Crescem Durante a Pandemia


“Feminicídios em BH: Duas mulheres foram mortas pelos companheiros. Um suspeito foi preso”; “Mulher é vítima de feminicídio em São Cristóvão”; “Casos de feminicídio sobem 73% nos primeiros três meses de 2020 em relação ao ano anterior no RS”; “Suspeito de matar a mulher em SP é preso em bar ao beber após o crime.” “Casos de feminicídio dobram no Acre e governo faz campanha contra violência doméstica”

Essas são algumas entres tantas manchetes de diversos sites e reportagens televisivas relatando casos de feminicídio em todo o país só esse ano. Os casos se agravam a partir de março, que inclusive é quando começa o isolamento social recomendado pela OMS por conta da pandemia. Os assassinatos dessas mulheres são efetuados de forma cruel e calculista. Em alguns relatos o agressor diz “sair de e si durante o ato”, todos os relatos apontam que a causa foi o ciúmes ou posse. O curioso é observar quantos desses homens se autodeclaram, logo após o feminicídio, vítimas da própria “insanidade”. Quando, na verdade, o nome que se dá é crime premeditado. Vejam aqui alguns relato sobre casos que aconteceram em abril desse ano: 
“A Polícia Civil de Boituva, a 121 km de São Paulo, prendeu anteontem um homem de 32 anos suspeito de matar a própria esposa, enrolar o corpo dela em um cobertor e ir a um bar antes de sumir com o cadáver. “

“A chilena Karina Constanza Bobadilla Chat, de 22 anos, morta com mais de 20 facadas no dia 1º de fevereiro em Rio Branco. O motivo do crime, foi porque a vítima não aceitava um relacionamento com o suspeito.”

“Katiane de Lima, de 23 anos, foi calada de forma brutal pelo companheiro dela com pelo menos três facadas, no pescoço, braço e costelas. Ela estava com o filho no colo na hora que foi assassinada “

“O da servidora pública Sara Araújo de Lima, de 38 anos, morta a tiros, no dia 13 de abril. O autor dos disparos foi o marido dela, Jorge Alberto Franco Filho. Eles já tinham se separado por ameaças do companheiro, Sara chegou a registrar queixa, mas os dois reataram e tudo acabou com os dois mortos.”

Em todos os casos, o assassino utiliza da mutilação, afogamento, esfaqueamento, utilizam ferramentas como chaves de fenda, martelo, pedra, foice, arma de fogo, para matar sua companheira. Segundo a pesquisadora, Jackeline Aparecida Ferreira Romio, autora do estudo "Feminicídios no Brasil: Uma Proposta de Análise com Dados do Setor de Saúde”, a  agressão é praticado por homens que tinham histórico de explosões de ciúme. É como se eles entendessem que aquele corpo feminino pertencesse a ele. Uma vez que a mulher não "obedeceu" à regra, ele quis destruí-lo. A mutilação vaginal ou de rosto está presente em 40% dos casos.

Mas porque homens se sentem no direito de tirar a vida de mulheres? Porque na maioria das vezes a causa dessas mortes se dá pelo sentimento de posse sob o corpo dessas mulheres? 

Vamos começar pela objetificação das mulheres sustentadas pelo patriarcado O feminicídio se constrói aos poucos, nos detalhes do dia a dia da relação. Vem maquiado de ciúmes, cuidado, amor, contada de geração em geração, para  homens e mulheres, desde a infância, em nome da manutenção do patriarcado e da submissão da mulher. Mulheres durante a história foram submetidas ao papel unicamente satisfatório para os homens, desde aos desejos físicos básicos como alimentação, até os desejos sexuais. Isso se dá muito por conta do construção da masculidade e como ela influenciou no comportamento do homem e na exigência dos mesmos sobre o comportamento da mulher. Por ser alimentada essa ideia moral cristã de que mulheres devem  submissão aos homens por toda uma sociedade imersas à ideologias machistas e sexistas,  muitas vezes romantiza-se a posse como sinônimo de amor. Isso é alimentado em romances na literatura, novelas, músicas. Existe todo um contexto social que faz com que o homem se enxergue como o provedor, o herói, o macho alfa, enquanto a mulher como um ser vulnerável, fraco e dependente (falo sem aprofundar num quisito raça, em que para as mulheres negras e os homens negros são dados papéis muito mais agressivos, mas aí é um papo para um outro texto). Quando uma mulher rejeita a atenção de um homem, esse tem sua masculinidade ferida, e como ele “não pode” demonstrar fragilidade, apela para a violência. Só que esse apelo tem matado mulheres todos os dias e culpado essas mesmas mulheres por suas mortes! 

Durante o isolamento social o índice de violência contra mulher física e sexual cresceu de forma exorbitante, porém diminuiu o numero de denúncias. As vítimas não conseguem se deslocar das suas casas para fazerem as denúncias por conta das medidas de proteção anunciadas pela OMS e porque estão expostas aos agressores vinte e quatro horas dentro de suas casas e por conta do medo, elas não dão a queixa. Há casos em que o corpo da vítima só foi encontrado alguns dias depois do crime por alguns vizinhos escondido em algum cômodo da sua casa. Os vizinhos encontraram por conta do mal cheiro. 

Mulheres têm seus corpos silenciados com a desculpa do “amar demais” Quem ama não machuca. Em tempos de isolamento, a exposição desses corpos para com seus agressores é ainda maior e tem acabado com mulheres sendo assassinadas. O pior é a naturalização dessas situações e a culpabilização da vítima em todos os casos pela sociedade e muitas vezes, a negligencia de tantos outros pelo Estado. 
Quantas vezes uma mulher terá que gritar para ser ouvida e sua vida ser poupada?






sexta-feira, 15 de maio de 2020

“E se uma nova geração de profissionais fosse perdida?”




É com esse slogan que o Ministério da Educação convida em rede nacional estudantes secundaristas para a realização do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) – o que é habitual nessa época do ano, se não fosse o fato de estarmos vivendo uma pandemia por conta da COVID-19.


Há alguns meses setores da sociedade foram orientados pela OMS (Organização Mundial de Saúde) a serem paralisados, dentre eles as escolas e aulas foram suspensas por tempo indeterminado. Nesse período, a modalidade de ensino a distância, conhecida como EAD foi adotada: as aulas presenciais foram substituídas e agora acontecem através de transmissões ao vivo, popularmente conhecida como lives, as avaliações são feitas em casa, há a possibilidade dos estudantes tirarem dúvidas com seus professores através de plataformas adotadas pela escola; enfim, uma série de recursos foram adotados para que o ensino não fosse prejudicado. 

Mas para quem esses recursos e tecnologias estão sendo direcionados?

Antes de tudo é preciso saber que, segundo uma pesquisa* realizada pelo TIC Domicílios em 2017 e divulgada em julho do ano posterior, pelo Comitê Gestor da Internet, no Brasil temos “27 milhões de residências desconectadas, enquanto outras 42,1 milhões acessam a rede via banda larga ou dispositivos móveis”, sendo que nas classes mais baixas o índice de pessoas sem acesso a internet é de 70%, enquanto que nas classe mais abastardas 99% dos domicílios possuem alguma forma de acesso.

É necessário trazer esses números a mostra, para voltarmos à pergunta que a propaganda do governo nos faz “E se uma nova geração de profissionais fosse perdida?” – é nítido para nós que uma nova geração já está sendo perdida há algum tempo: quando não há estrutura no ambiente escolar para os estudantes, falta de livros e laboratórios de pesquisa, salas de aula superlotadas.  Sobretudo agora, é perceptível a disparidade entre o ensino privado onde métodos EAD estão sendo utilizados e o ensino público, onde estudantes que são em sua maioria pobres não possuem acesso a esses meios  na escola, tampouco em suas residências.

Manobras para continuar os estudos são feitas diariamente, usando a internet do vizinho para baixar o material, ou se descolando a outro ponto para conseguir o sinal. Essa é uma das realidades que o atual governo fecha os olhos. O quão interessante é para o Estado que um ou uma jovem negro (a) secundarista, ingresse no ensino público superior? Para o regime que vivemos essa geração de profissionais deve ser de fato perdida e vire mais um número na estatística seja ela a do desemprego ou morte.

Apesar do delicado momento em que todos nós estamos vivendo, se faz necessário refletir e, sobretudo, lutar contra um sistema opressor que a cada dia que passa crava ainda mais suas garras e dilacera de todas as formas possíveis o povo pobre e periférico. Não é o momento de continuarmos como se nada estivesse acontecendo e seguir a diante com o ENEM, tampouco de pedir o adiantamento das provas. Adiantar esse exame, que para muitos é a oportunidade de fazer uma faculdade e ser o primeiro, a primeira da família a estar no ensino superior e não fazer parte das estatísticas é de fato a solução? Precisamos lutar para um ensino público, de qualidade a todas e todos!

Tampouco, não podemos nos iludir com o ensino a distância – visto como uma medida de urgência nesse momento de crise é um projeto de sucateamento e desvalorização dos professores. O ensino através de lives e vídeo aulas gera uma falsa compreensão dos conteúdos administrados, além disso, o governo pode não contratar novos professores e demitir os existentes tendo como base o EAD. O ambiente é escolar vai muito além da relação professor x estudante: coordenadores, diretores, auxiliares escolares, fazem parte do ambiente físico da escola, de sua estrutura e funcionamento, todos serão afetados caso no futuro o EAD seja adotado como nova forma de ensino. 

A educação segue sendo nossa maior arma contra os gritos de tirania sobre nosso povo, não podemos deixar que o ambiente escolar deixe de existir, pelo contrário: temos que resistir, lutar e criar um poder popular!